A Homeopatia
A homeopatia consiste no conjunto de procedimentos que permitem aplicar a única lei terapêutica conhecida com vista à cura dos doentes: a lei dos semelhantes.
Os resultados terapêuticos só se manifestam se forem rigorosamente respeitados os princípios definidos pelo descobridor da homeopatia, o Dr. Samuel Hahnemann, ao longo de 55 anos de observações e experiências clínicas. Horrorizado com a forma muito aproximada como os médicos parisienses aplicavam as suas descobertas, ao mesmo tempo que continuavam a praticar sangrias, Hahnemann proferiu uma frase famosa: “Imitem-me, mas imitem-me bem!“ “ Infelizmente, há praticamente um século que o mundo da homeopatia parece ter esquecido até mesmo a existência do Organon, o livro em que Hahnemann registou as suas descobertas. Assim, a homeopatia tem sido ensinada com base em visões arbitrárias concebidas por pessoas que nunca dominaram completamente a arte, nem sequer leram o Organon. A cada geração, o nível de competência tem vindo a declinar até à miséria atual, em que ”gurus“ impõem visões cada vez mais desviantes a um público crédulo e cada vez menos instruído. O ponto comum a todos estes desvios é a vontade de erigir como valor absoluto um aspeto que nunca passará de relativo: ”barreiras vacinais“, ”a sensação“, ”a tabela periódica», «o souchismo», etc.
A Gestalt
Ao longo dos 291 aforismos do Organon, Hahnemann apresenta um desenvolvimento lógico baseado no raciocínio e na observação clínica. Cada um destes 291 aforismos é relativamente independente dos demais, o que demonstra que não existe uma proposição única com valor absoluto, mas apenas proposições relativas que ganham sentido quando consideradas no seu conjunto. O Organon só permite tornar-se homeopata quando aplicado na sua totalidade; é possível complementá-lo, mas nada lhe pode ser retirado, o que Hahnemann denomina “Gestalt”. O que aqui dizemos sobre a homeopatia aplica-se, como veremos mais adiante, ao próprio doente, que não pode ser reduzido a um único sintoma.
Não-reducionismo
A Gestalt representa a ferramenta conceptual adequada a uma visão não reducionista. O reducionismo permitiu avanços sensacionais nas ciências do mundo inanimado, pois pode-se supor que os átomos não sofreram alterações desde a criação. Tal não se verifica no caso das entidades biológicas, que evoluem há milhares de milhões de anos. Reduzir o ser humano a órgãos, depois os órgãos a células e, por fim, as células a mecanismos biológicos, não contribui em absolutamente nada para a medicina.
Conjunto de sintomas
Desta realidade decorre que cada doente apresenta um conjunto completo de sintomas que a medicina convencional pretende reduzir apenas ao sintoma que lhe interessa tratar nesse dia, o que constitui uma abordagem arbitrária e perfeitamente anticientífica. Uma vez que o doente não pode ser reduzido a um órgão doente, a única forma de abordar o problema é através do conjunto dos seus sintomas, que caracteriza indiretamente o interior invisível do organismo. É esse conjunto que caracteriza o caso; trata-se da noção de «totalidade significativa», uma combinação única para cada doente.
a) Princípio da individualização
Daí decorre o Princípio da Individualização, essencial à prescrição. É ao caracterizar perfeitamente o caso, nomeadamente naquilo que o torna mais singular, que o médico homeopata poderá identificar o medicamento indicado.
b) Força vital
Se tal conjunto se mantiver num doente, é necessário que exista uma causa comum subjacente a esses sintomas, de modo que o conjunto represente a manifestação desse distúrbio interno, que, no entanto, permanece invisível à primeira vista. A lógica leva-nos a pensar que essa desordem existe a montante dos próprios órgãos. Assim, os homeopatas são médicos vitalistas: a reflexão leva-nos a pensar que “as manifestações a que chamamos doenças assentam apenas no desequilíbrio da energia vital”, tal como afirma Hahnemann.
c) Alívio eterno
Daqui decorre que tudo o que podemos observar a olho nu ou ao microscópio não passa de resultado de uma perturbação dinâmica a montante (salvo, evidentemente, no caso de uma causa traumática externa) e não constitui, de forma alguma, a causa da doença. Assim, qualquer tratamento que vise fazer desaparecer essas manifestações não pode ser senão paliativo e está eternamente condenado ao fracasso. É isso que se tem observado desde sempre com a prescrição alopática.
Propriedade dos medicamentos
As experiências e os casos de intoxicação observados ao longo dos séculos comprovam que todas as substâncias ativas têm o potencial de perturbar o organismo, provocando um quadro patológico específico.
a) Totalidade da ação
Daí decorre que todas as drogas, medicamentos ou outras substâncias ativas são também capazes de provocar uma totalidade, o que demonstra tanto a sua ação geral como o facto de o organismo reagir como um todo. Tal como cada doente é portador de uma totalidade, cada medicamento também o é, sendo capaz de deixar a sua marca única no organismo vivo.
b) Efeitos “secundários”
Da mesma forma que é arbitrário querer isolar um sintoma do doente, ignorando os restantes sintomas ou classificando-os como “secundários”, é perfeitamente arbitrário falar de “efeitos secundários” de um medicamento: trata-se simplesmente do resto da sua ação total no organismo.
c) Sensibilidade ou suscetibilidade
À pergunta “o álcool embriaga?”, a resposta varia consoante a quantidade e a suscetibilidade do indivíduo ao álcool. O mesmo se aplica às drogas utilizadas na medicina. Existe um continuum de suscetibilidades individuais, que são previsíveis com as “ferramentas” homeopáticas. Estes fenómenos estão no cerne do próprio processo de cura, graças à ação de uma substância que será ou não percebida pelo organismo. Por outro lado, é também através de um fenómeno de suscetibilidade que nos adoecemos: a mera exposição ao fator desencadeante, como o frio ou um micróbio, não é suficiente; é necessário que exista previamente uma suscetibilidade, que, por sua vez, depende diretamente do estado de saúde do doente.
Por que razão um medicamento que teve efeitos benéficos a nível clínico numa pessoa se revela ineficaz ou mesmo claramente tóxico noutra? Trata-se de uma questão central na medicina, que ninguém parece colocar. Apenas a homeopatia oferece respostas que aqui apenas podemos abordar parcialmente. A suscetibilidade do doente está diretamente ligada à perturbação do seu estado interno, de natureza dinâmica, e ao facto de a vida ser regida por mecanismos caóticos, pelo que uma alteração muito mínima pode ter repercussões enormes. A maioria das pessoas será capaz de reagir a uma substância em dose massiva (tóxica); apenas alguns raros indivíduos suscetíveis reagirão a quantidades muito mais reduzidas, mas de forma por vezes grave ou explosiva.
Interação entre duas totalidades
A homeopatia mostra-nos que a absorção de qualquer substância ativa implica a interação entre duas totalidades: a do doente e a do medicamento. Quando as duas totalidades em interação não têm nada a ver uma com a outra, ou seja, quando os seus quadros clínicos são diferentes, não existe qualquer suscetibilidade particular. Nada acontece, a menos que se insista na administração de doses contínuas e crescentes; nesse caso, pode surgir um quadro tóxico que, em maior ou menor grau, suplantará o quadro patológico inicial.
Por outro lado, se as duas totalidades forem semelhantes, ou seja, se o quadro patológico da droga administrada se assemelhar à totalidade manifestada no doente, então existe uma suscetibilidade maior e, nesse caso, a interação é extremamente violenta.
a) Dinamização
Foi devido a estes fenómenos de agravamento acentuado que a Lei dos Semelhantes permaneceu inexplorada desde os primórdios da medicina. Foi ao constatar, por sua vez, estas manifestações assustadoras que Hahnemann teve a ideia de reduzir drasticamente as doses até ao ponto em que sabia perfeitamente que já não existia qualquer vestígio químico da substância… o que, mesmo assim, não impedia o organismo de reagir à presença do medicamento. Este processo de fracionamento e agitação denomina-se dinamização e não é uma simples diluição; qualquer pessoa pode fazer a experiência de deitar uma gota de estricnina no oceano.
b) Interação de forças
Embora descobertas recentes apontem para a existência de microestruturas cristalinas na água, ainda ninguém consegue explicar a natureza da dinamização. Ficaremos com a ideia de que apenas um agente dinâmico pode ser percebido pela força vital “desequilibrada”, e é precisamente neste plano de ação dinâmico, não material, que ocorre a cura. Evidentemente, estas noções foram rejeitadas pelo materialismo científico desde a época de Hahnemann, e hoje em dia são combatidas com a mesma veemência. No entanto, decorrem da simples observação e do raciocínio lógico.
c) Homeopatia
É sempre a observação que demonstra que, na interação entre duas totalidades semelhantes, a mais forte será capaz de destruir a mais fraca. É isso que afirma Hahnemann (Organon §26):
Num organismo vivo, uma afeção dinâmica mais fraca é suprimida de forma duradoura por uma mais forte, se esta (embora de espécie diferente) se assemelhar, no entanto, muito à primeira na sua manifestação.
Ao longo de 30 anos de prática, não me foi possível refutar as conclusões de Hahnemann que acabámos de abordar brevemente aqui. O objetivo da Escola é levar ao maior número possível de pessoas os conhecimentos hoje tão negligenciados na homeopatia, sensibilizar o público e formar a próxima geração de homeopatas competentes.
